sexta-feira, 13 de junho de 2014

Copa das 'selfies': a moda já foi longe demais? Saiba se você também sente os efeitos da exposição

Nos Estados Unidos, disseminação dos autorretratos é apontada como razão para aumento de intervenções no rosto e também nas mãos. Pressão constante nas redes sociais e aplicativos teria aumentado insegurança, principalmente em adolescentes e adultos jovens. 


A psicóloga Fernanda Seabra, especialista em Terapia Familiar Sistêmica e integrante do Projeto Adolescer, foi a profissional que ouviu a frase que abre a matéria. Com aquelas palavras exatas. Ela aponta que o narcisismo, apesar de sempre parecer a explicação mais fácil nesses casos, realmente está inserido nesse contexto, mas não é o único argumento. “Parte dos usuários – não todos, é claro – vive no mundo virtual aquilo que não consegue viver na realidade. São pessoas em sua maioria carentes, com autoestima debilitada e que dependem de 'curtidas' e comentários para se sentirem bem, para terem a sensação de que são amados”, explica.

Fernanda salienta que essa 'necessidade' não é nova, o que mudou foi a rapidez com que a informação e a imagem circulam. Com o ambiente virtual, tornou-se possível construir uma imagem de glamour e ganhar visibilidade com essa pose, ainda que seja uma meia-verdade. “Quem conquista essa visibilidade passa a ser 'seguido' e as marcas estão de olho nesses porta-vozes. O transtorno de personalidade narcisista, caracterizado, entre outras coisas, pela pessoa que precisa constantemente de aprovação externa, sempre fará parte dessa relação”, avalia. Um outro complicador é que o narcisista quer que o outro veja tudo que ele faz, mas não quer que as outras pessoas tenham a mesma oportunidade.” Aos poucos, essa pessoa vai perdendo parte de suas características humanas – a bondade, a compaixão, o altruísmo”, destaca a psicóloga.

A desumanização vem acompanhada de um pensamento com foco em imagem, poder e status. No caso das mulheres, principalmente, em magreza. Fernanda cita dois exemplos – a 'selfie' pós-sexo e o 'Ken brasileiro'. “A selfie #aftersex, que se tornou moda nos últimos meses, tem alguma outra função que não dizer ao mundo que se é uma pessoa amada, que se tem vida sexual satisfatória – ainda que a realidade não seja tão cor de rosa assim?”, questiona a psicóloga.

No caso do modelo Celso Santebañes, mais conhecido como o Ken brasileiro, uma declaração recente chamou a atenção de Fernanda - “quando estou triste, olho no espelho, aí não fico mais triste”, disse em entrevista na televisão. Aos 20 anos, ele já gastou R$30 mil em cirurgias plásticas – nariz, queixo, peito. “O entrevistador questionou porque o rapaz não olhava nos olhos dele na entrevista. Ele disse que preferia olhar o monitor. É um sinal de desumanização”, exemplifica a especialista.
 
É claro que existe uma parcela das pessoas que faz uso saudável da rede - por motivos profissionais, para dar notícias aos amigos e familiares em momentos de viagem, por exemplo. “São pessoas que vivem o mundo real, têm amigos reais, não 'precisam' de curtidas e comentários. Conseguem dividir seu tempo, conseguem ir e vir entre as duas faces. Mas quando esse hábito se torna uma compulsão, integra uma necessidade de ostentação e de aprovação constante, é hora de questionar”, orienta Fernanda. Conectar-se no virtual para fugir do real é o perigo, destaca a terapeuta.

Nada de novo no front?
 
Há um outro lado nessa história toda – o de quem curte. A exposição pode criar, além de admiradores, uma rede de inveja. Existem aqueles perfis de usuários de redes sociais que, apesar de não postarem nada de si mesmos, acompanham a vida do outro. E pautam sua vida pela rotina alheia – não por admiração.

A vontade de pertencer a um grupo é velha conhecida dos seres humanos. O que mudou é a instantaneidade e os critério de pertencimento. Se antes esperávamos dias pela revelação de uma foto, hoje ela está no ar em segundos. “Posso mostrar o que eu tenho, o que eu consumo. É isso que vai me tornar alguém diante dos olhos de várias pessoas – o ter; e não o ser. A imagem que eu quero passar está diretamente ligada ao consumo”, aponta Fernanda.

De acordo com a psicóloga, a imagem construída na sociedade do consumo e da performance contrasta com as queixas no consultório – solidão, dificuldade para encontrar um companheiro (a), carência. “O selfie traduz bem isso – eu gasto para me transformar em quem eu quiser e ficar bonito de acordo com os critérios alheios. Segue-se a moda dos outros; e não a própria moda”, pondera Fernanda.


Um dos maiores desafios do ser humanos é, segundo a especialista, tolerar quem nós somos. “Não vejo problemas em uma intervenção cirúrgica, desde que o significado seja realmente importante para aquele indivíduo; e não por uma moda ou para ganhar exposição”, conclui.

Identidade
 
E por que sempre os mais jovens são os mais afetados? Esses impactos são mais fortes na turma com menos de 30 anos porque é justamente até essa idade que a pessoa está construindo sua identidade.

Os mais jovens têm ansiedade para experimentar, mas ainda não têm crivo para avaliar plenamente. “Entre os 18 e 30 anos, é comum que a maioria das pessoas faça o que todo mundo faz - tira a carteira, entra para a faculdade. É a cultura do 'seu mestre mandou'”, esclarece Fernanda.

Por volta dos 30 anos é que os questionamentos verdadeiramente acontecem e a pessoa passa a reavaliar o que traz significado para a vida. Mas nem sempre – até isso está mudando “As crianças têm que ser miniadultas, usa roupas de adulto, crescer rápido. Depois entram na juventude e não conseguem sair dela. Têm vida sexual ativa, emprego, renda, mas não querem sair da casa dos pais, não querem assumir responsabilidades”, aponta a psicóloga.

Fernanda avalia que os adultos de hoje são 'adulterados', pessoas que têm idade para serem adultos, mas não entendem o que é responsabilidade ou consequência. Não sabem como lidar com a tristeza, porque não há lugar para isso no mundo em que viveram. A tristeza afasta as pessoas no mundo virtual, faz perder 'amigos'.  


O resultado é o excesso de remédios para afogar os sentimentos, é o foco no mundo virtual, no poder, na beleza. É a não-aceitação do envelhecimento ou os efeitos da gravidez no corpo. “Quando a amiga vai visitar a outra que teve bebê, a primeira reação é – olha, como você está magra, ótima. E depois é que vem o bebê. Ficamos distantes de nós mesmos, sem saber quem somos. Não aceitamos que o tempo traz coisas boas”, define a especialista.

Inversão de valores
A questão do aumento das cirurgias plásticas entre os adolescentes esbarra também na inversão de valores – pais inseguros resolvem assumir a posição de 'amigos' dos filhos, e jamais dizem ‘não’. O ‘não’ vai gerar um trauma; e o trauma é ruim. “Os pais geram um ciclo muito negativo para o ser em formação. Eles pensam - se eu repreender meu filho, ele vai se tornar rebelde, vai usar drogas. E a criança fica sem limites e sem referência”, exemplifica a profissional. Fernanda Seabra provoca: o jovem que só ouve ‘sim’ dos pais, aceitará um não da namorada?

No caso da filha que pede uma lipoaspiração ‘de presente’, é comum que a mãe também esteja na mesma onda. “Se eu quero ver a minha filha feliz, ela tem que fazer isso”, é a frase que vem à cabeça. “Muitos pais não entendem a alternativa do diálogo franco - explicar que neste momento ainda é cedo para uma intervenção desse porte. A vontade no futuro pode ser outra, pode ser até oposta”, pondera.

A psicóloga completa esse raciocínio com a questão das pequenas misses, submetidas a tratamento de beleza quando ainda têm 3, 4 anos. “Não é uma realização da criança, é da mãe”, alerta.


Fernanda considera que as consequências de 'pular etapas' refletem-se de forma drástica na vida desses adolescentes, e não só na estética. “Se há falta de limites e permissividade total, a vida sexual também se inicia mais cedo. Quando ela começa antes que o corpo esteja pronto, corremos o risco de ter uma geração de meninos e meninas que simplesmente não têm prazer. Eles transam mesmo assim, porque 'todo mundo transa'”, alerta a especialista.

Mundo interior desconectado
Todas essas questões, que parecem mais externas – o cabelo liso, o corpo escultural, o peito grande – estão vinculadas, na verdade, a uma dificuldade de construir o mundo interior. Fernanda aponta que, para haver conexão verdadeira consigo mesmo, é necessário perguntar-se: do que eu gosto? O que me satisfaz? O que me deixa feliz? Do que eu não gosto em mim? Como lido com essas coisas que eu não gosto? “Se a resposta a essas perguntas for relacionada apenas às aparências e a objetos de consumo, é tempo de parar e pensar”, diz Fernanda.

Quando não há pausa para pensar, só teremos tempo para o mundo das imagens, para as dietas malucas e os transtornos alimentares. “É por isso que o nariz imperfeito torna-se fonte de sofrimento. É por isso que não toleramos as outras pessoas, é por isso que nós nos desumanizamos. Muitas vezes, só na dor e na perda é que conseguimos fazer essa conexão interior. Temos que ensinar nossos filhos a questionar”, reforça. “E isso vale para a obsessão pela beleza, para a dependência química (hoje, meninos de 12 anos já são internados para tratar a dependência do álcool), para as crises naturais da adolescência. Você deve mostrar ao seu filho ou filha que ele tem valor, mesmo que a vida traga alguma frustração - e ele tenha que lidar com ela”, conclui a psicóloga.

Fernanda Seabra lembra que o problema não está na ferramenta ou na rede social em si. Ela oferece uma infinidade de aplicações positivas. A preocupação está no preparo para avaliar as posturas virtuais e o uso que cada um adota. Em todos os casos, a dica é: questionamento. Perguntar-se, de tempos em tempos, sobre os efeitos do online na vida real é sempre uma postura válida.

Sinais de alerta:

Caso você apresente algumas dessas características, está na hora de parar para pensar, segundo a psicóloga Fernanda Seabra:
  • dificuldade para desconectar das ferramentas online, causando atrasos em compromissos reais, por exemplo; ou noites insones;
  • sentir-se menos bonito ou interessante em comparação com os 'amigos' das redes sociais;
  • o número de curtidas e comentários em 'selfies' no Instagram ou Facebook é motivo de preocupação e de verificação constante;
  • você tira mais fotos para mostrar que você está em determinado lugar do que para celebrar o momento ou indicar o programa aos amigos;
  • você não posta nada pessoal, mas acompanha a rotina dos 'amigos' e quer imitá-los;
  • você se sente tentado a fazer intervenções estéticas em função de fotos que vê nas redes sociais.
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