Diferenciações de deveres entre meninos e meninas podem evoluir para um comportamento discriminatório no futuro
“Azul é de menino e rosa é de menina”. Muitos adultos já ouviram
frases semelhantes durante a infância, dos próprios pais. A distinção
valia para tudo. Desde as brincadeiras mais inocentes, como jogar bola
ou brincar de casinha, até questões mais sérias, sobre independência
financeira e pessoal. Os homens trabalhavam, as mulheres cuidavam da
casa e dos filhos.
Muita coisa mudou de alguns anos para
cá, mas alguns ideais em relação à educação dos filhos permanecem os
mesmos. Sem perceber, pais podem estimular ideias e comportamentos
machistas nas crianças, desde os primeiros anos. Esses valores, que irão
se desenvolver melhor na fase adulta, podem trazer problemas mais
tarde. Entre eles, a dificuldade para se adaptar a uma nova sociedade,
que caminha para uma realidade cada vez mais igualitária.
“Tudo depende muito da criação que os pais tiveram e do
relacionamento que têm entre si. O que acontece com pais mais velhos é
que eles vêm de um tipo de criação mais paternalista, autoritária. A
melhor forma de trabalhar isso com os filhos é tentar entender que os
valores mudaram. A gente vive em uma sociedade diferente, menos
patriarcal”, pontua o psicólogo Fábio Roesler.
Se a criança tem
exemplos positivos em casa, como pais que dividem as tarefas domésticas,
fica mais fácil para ela compreender a importância de uma relação de
igualdade e respeito entre homens e mulheres. Ou seja: os filhos
aprendem que não existe uma regra específica para deveres masculinos e
femininos.
Respeito
O pequeno Tito, de
quatro anos, sempre usou roupas de diferentes cores e modelos. Segundo o
pai, Felipe Cainelli, as peças de do filho são consideradas femininas
pelas lojas de roupas. “Minhas outras duas filhas, Maya e Maitê, também
usaram as roupas dele quando eram mais novas. Acho que existe uma
paranoia muito grande dos pais em mostrar para o mundo que aquele bebê é
menina ou menino”, critica o pai.
A criação de Tito, Maya e Maitê é baseada na liberdade, apenas.
Nenhum deles é ensinado de acordo com as crenças e vontades pessoais dos
pais. O filho mais velho, por exemplo, adora pintar as unhas com
esmalte colorido. Suas cores favoritas são rosa e roxo. “A gente sempre
deixou. Ele fica bem feliz de mostrar as cores que escolheu para as
pessoas. É uma sensação de liberdade para a criança, pois ela percebe
que suas escolhas são respeitadas. Ela é quem cria a própria
identidade”, reforça Felipe.
A diferenciação dos gêneros só existe
por conta da pressão do convívio social. Na cabeça de uma criança, não
há nada de errado em pintar as unhas, brincar de boneca ou praticar
esportes tidos como masculinos, como o judô.
“Não existe um único
comportamento adequado apenas para meninos ou meninas. São crianças que
ainda estão se desenvolvendo e se descobrindo. É o mesmo que dizer que
menino não pode chorar, porque isso não é másculo. Isso também vale para
as meninas, como se elas fossem obrigadas a sonhar com a criação de uma
família, por exemplo”, atenta a psicanalista Silvana Rangel.
Quanto
mais os pais evitarem essas limitações, mais tranquilo será o
desenvolvimento da criança. Reprimir, proibir ou castigar os
comportamentos “inadequados” só causam sofrimento em longo prazo. Por
não se sentir adequada ao ideal dos pais, o filho pode desenvolver
transtornos como depressão e crises de ansiedade, já que não consegue
lidar com a rejeição.
Lugar de mulher
“Disseram
na escola que existe coisa de menina. Eu respondi que existe coisa de
criança, e que estou certa, porque você me disse. Né, mamãe?”. Foi isso
que Beatriz, de quatro anos, disse à mãe Isabela Kanupp, autora do blog Para Beatriz.
Desde
que a pequena nasceu, Isabela teve certeza de que daria uma educação
diferente à filha. Nada de obrigações e deveres femininos, como estava
acostumada a ver em sua própria família. Beatriz cresceu aprendendo a
valorizar e respeitar as diferenças, sabendo que suas vontades são
compreendidas pela mãe, mesmo que ela ainda seja uma criança.
“É
muito limitador crescer achando que determinado brinquedo é para
menina, que determinada cor é para menino. É injusto. Eu acredito que
ela será mais feliz sendo livre. Eu fui criada com diversas opressões
sutis”, lembra Isabela.
Valores machistas são reproduzidos e
perpetuados automaticamente por algumas famílias. Com Isabela, não foi
diferente. Nem todos concordam com o tipo de educação que ela escolheu
para Beatriz.
“Já disse para a minha filha que a gente namora,
beija, casa com quem a gente gosta, independente de ser menino ou
menina, por exemplo. Uma pessoa da família me ameaçou, disse que era
absurdo ensinar isso para ela. Consegue sentir a homofobia?”, questiona
Isabela.
Esse é outro ponto que merece atenção dos pais. A
sexualidade das crianças não deve ser discutida ou reprimida logo nos
primeiros anos. Características como emotividade e delicadeza não
sugerem a orientação sexual dos filhos, garantem os especialistas. São
apenas rótulos, que reforçam estereótipos e ideias discriminatórias.
Liberdade de expressão é o melhor caminho para poupar os pequenos do
sofrimento.
FONTE: Delas.ig.com.br

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